quarta-feira, 27 de junho de 2007

Proposta

Enquanto ainda fomulava as bases da psicanalíse, na época pouco mais que um rascunho, Freud ansiava por um espaço em que suas idéias pudessem tomar forma. Nos concorridos corredores da Academia vienense, entre universidades e hospitais dedicados à pesquisa, não havia lugar para isso. A sociedade e seus muitos círculos de estudo dedicava-se a temas polêmicos, mas centrados. Pouca ou nenhuma chance era dada aos que buscavam o radicalmente novo dentro desse mundo. Para discutir os sonhos de sua teoria ainda disforme, restava alugar os olhos e ouvidos de uns poucos amigos e extender-se nas palavras trocadas em uma vasta e regular correspondência. Este foi o papel ocupado por nosso caro Fliess.

Nas cartas que eles trocaram diariamente, por anos a fio, Freud e seu amigo compartilharam confidências e fantasias – castelos de areia que não poderiam tomar forma senão naquele espaço de escuta. Para os que admiram a psicanálise, esta foi a terapia em que Freud realizou quase toda a sua auto-análise. Para os que a criticam, este foi o espaço em que dois loucos trocaram devaneios na esperança de que esses fizessem sentido aos olhos de outros. Em ambos os casos, foi nesse espaço que seus pensamentos tomaram forma, em que seus erros e acertos puderam ser escrutinados pelo viés alheio.

Este é o espaço que eu quero. Não peço pouco, e é por isso que lançarei um estatuto, para que meus presentes e futuros amigos me entendam.

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